Hexagrama 1 / 64
O Criativo
Seis linhas contínuas, sem qualquer interrupção em toda a figura: nada que ceda em lado nenhum. O Criativo abre a sequência dos 64 hexagramas porque descreve o instante anterior a tudo, quando só existe potencial — a força pura que dá início às coisas, em vez de responder a elas. A maioria dos hexagramas descreve uma situação em que já se está inserido; este descreve antes uma força que é pedida para ser usada, energia sem lugar ainda para se fixar, porque nada foi ainda construído para ela agir sobre. É exatamente por isso que ocupa o primeiro lugar da sequência: antes de haver um campo para semear, uma casa para governar, ou um conflito para resolver, tem de existir isto — a capacidade em bruto de começar algo onde antes não havia nada.
Quando surge numa consulta, costuma significar que há mais espaço para liderar ou iniciar do que aquele que tem vindo a ser ocupado. O seu conselho favorece a iniciativa: lançar o projeto, apresentar a proposta, ocupar a abertura que há muito está por reclamar. Mas a mesma imagem traz consigo o seu próprio aviso. Força sem descanso acaba sempre por ultrapassar-se — um dragão que sobe demasiado alto já não tem por onde descer com dignidade. Convém agir, mas a um ritmo sustentável, porque a força que este hexagrama descreve só é real enquanto souber, também, parar e deixar que outra coisa assuma o lugar por algum tempo.
Quem carrega uma ideia há meses, à espera do momento certo, raramente vê este hexagrama surgir por acaso. É geralmente sinal de que a espera já cumpriu a sua função e de que o verdadeiro risco passou a ser o silêncio continuado. O Criativo não promete que a ideia será aceite. Promete que o momento favorece a tentativa, e que o custo de mais um mês de hesitação se tornou, silenciosamente, maior do que o custo de um eventual não — um cálculo fácil de inverter quando se está dentro dele.
O Criativo forma par com o Hexagrama 2, O Recetivo, como o primeiro dos 32 pares complementares da tradição — Céu e Terra, iniciativa e recetividade, os dois pólos entre os quais todo o sistema se desdobra. Traçado com uma linha em mutação, os seis textos das linhas seguem um dragão a diferentes alturas: submerso e invisível, depois visível no campo, depois em voo, depois excedendo-se no topo — um arco contínuo, a vida de uma ambição desde antes de ser visível até ao momento em que precisa de ser contida. A linha que muda indica em que ponto desse arco se encontra quem consulta, e o que a subida ainda lhe vai exigir.