Hexagrama 27 / 64
As Bordas da Boca
Uma boca aberta entre uma montanha em cima e um trovão em baixo. Este hexagrama coloca uma pergunta genuinamente prática: o que se está a alimentar, e o que está a alimentar quem consulta? Comida, ideias, cuidado e influência cabem todos na sua imagem, já que todos entram ou saem de uma pessoa da mesma forma básica, através daquilo que se escolhe absorver e devolver.
Ronda questões de autocuidado, das influências que se deixa entrar no próprio pensamento, de como se cuida dos outros — literalmente, emocionalmente ou intelectualmente, e muitas vezes das três formas ao mesmo tempo sem se notar bem qual. O seu conselho distingue alimentar-se devidamente de negligenciar as próprias necessidades para alimentar excessivamente os outros, e procurar fontes de nutrição que valham a pena em vez de consumir simplesmente o que está mais à mão sem grande reflexão.
Considere-se alguém que gasta a maior parte da sua energia a cuidar de uma equipa ou família enquanto discretamente funciona a meio gás, ou alguém que tem consumido passivamente a informação e a companhia mais próximas em vez de procurar o que lhe seria de facto nutritivo. Este hexagrama é um convite a examinar esse equilíbrio com honestidade, sem tratar o autocuidado como egoísmo nem o cuidado pelos outros como automaticamente virtuoso. Como seria alimentar-se a si próprio com a mesma deliberação com que se alimenta todos os dias quem está à volta?
As Bordas da Boca segue O Poder de Domar do Grande, e a sequência faz sentido: força e disciplina acumuladas precisam de nutrição contínua adequada para se sustentarem, em vez de se esgotarem assim que finalmente são postas em uso. Vale uma cautela específica do texto antigo — várias linhas descrevem alguém a negligenciar a própria nutrição para alimentar outros de formas que nunca foram de facto pedidas nem necessárias. Generosidade mal dirigida, por bem-intencionada que seja, não é o mesmo que cuidado bem direcionado, e pode deixar ambas as partes pior do que antes de ser oferecida.